domingo, 25 de julho de 2010

Um "não" à petulância

Taguatinga (amanhã é dia) - Na última semana, o técnico Muricy Ramalho fez o que muitos não imaginavam ou não esperavam: disse não ao convite de treinar a Seleção Brasileira. Um simples "não"? Longe disso! O não de Muricy foi emblemático. Foi um não à tudo que hoje representa a presença negativa de Ricardo Teixeira à frente da CBF. Uma CBF, que trata a Seleção como um produto, que coloca-o na prateleira e quem tiver dinheiro suficiente pode comprar. Assim o foi durante toda a sua gestão. Quantos patrocinadores tem a Seleção atualmente? Qual o valor dos contratos? Como este dinheiro é revertido ao futebol brasileiro? Ninguém sabe. Talvez nem mesmo o magnânimo.

Sempre considerei Muricy um cara diferenciado e na sua sinceridade mora o melhor de sua figura. Mesmo quando o time ganha ele é capaz de dizer que "ganhou mas jogou pior", sabe reconhecer a superioridade do adversário e, principalmente, não tenta camuflar os erros de sua equipe com discursos contra a arbitragem, calendário ou o que quer que seja. Daí sua famosa frase: "Aqui é trabalho". E talvez esteja aí o motivo pelo qual a Seleção não seria interessante para ele atualmente. Na Seleção há espaço para TRABALHO? 

Vejamos... Há um contrato que obriga a Seleção a jogar um determinado número de jogos na Inglaterra. Os amistosos, normalmente ocorrem às quartas-feiras. Então a agenda é: viagem na segunda, treino na terça e jogo na quarta. Um dia de treino? É... Ah, também tem as competições, certo? Então vamos lá: teremos Copa América, Olimpíada e Copa das Confederações (o Brasil não disputa eliminatória por ser o país sede em 2014). Nem sei dizer a última vez em que o Brasil levou o time principal para disputar a Copa América. Sinceramente, desde que comecei acompanhar, em 1989, quem disputa esta competição é a segunda linha, salvo engano (e não acontece só com o Brasil). Olimpíada? Torneio sub-23 não oficial. Uma briga sem fim onde os clubes não querem ceder seus atletas. Até seria uma boa oportunidade para conhecer alguns jogadores, mas é complicado. Copa das Confederações? Nem para chamar de competição direito, mas talvez será a única oportunidade de reunir a Seleção de fato e treinar, mas vale lembrar que ela ocorre a 1 ano da copa, muito tarde.

E vale falar também, sobre a forma como a situação foi conduzida. Pateticamente, diga-se. Na quinta à noite, um garoto de recados convida o Muricy para conversar na manhã seguinte com o magnânimo. Durante o encontro, a emissora oficial da CBF crava Muricy como "o novo técnico da Seleção". Sem ouvir a palavra do próprio. Muricy, na saída, declara: "Tenho que conversar com o Fluminense primeiro". O tom do Fluminense foi perfeitamente normal: "O Fluminense não tem interesse em liberar o Muricy. Estamos satisfeitos com seu trabalho e queremos estender o vínculo.". 

Se Muricy assim o quisesse, poderia ter pedido ao Fluminense que o liberasse ou poderia simplesmente romper o contrato. Mas não o fez. Disse não à petulância de um presidente que tratou a contratação do novo técnico da Seleção Brasileira com menos seriedade do que deveria, que deixou para iniciar uma conversa às vésperas da data do anúncio oficial, que conversou diretamente com um profissional  empregado em um clube afiliado sem consulta prévia a este, que achou que estalaria os dedos e teria quem quisesse ao seu dispor, que esteve à frente de quatro campanhas sem sucesso em copas do mundo, não assumiu sua parcela de responsabilidade e que sempre "saiu da frente" deixando o peso das derrotas apenas para técnico e jogadores.

Na Seleção, Muricy não iria trabalhar. Iria cumprir contratos da CBF. Ficou no Flu para cumprir seu próprio contrato. Disse não à negociata, à arrogância e à petulância. Palmas para Muricy.

Um comentário:

  1. Belo artigo. Menção honrosa para o último parágrafo. Parabéns.

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